"...brilhe a vossa luz diante dos homens,
de modo que, vendo as vossas boas obras,
glorifiquem o vosso Pai, que está no Céu."
(Mt 5, 16)

São vários os cristão alentejanos,
ou com profunda relação ao Alentejo,

que se deixaram transformar pela Boa Nova de Jesus Cristo
e com as suas vidas iluminaram a vida da Igreja.
Deles queremos fazer memória.
Alguns a Igreja já reconheceu como Santos,
outros estão os processos em curso,

outros ainda não foram iniciados os processos e talvez nunca venham a ser…
Não querendo antecipar-nos nem sobrepor-nos ao juízo da Santa Mãe Igreja,
queremos fazer memória destas vidas luminosas.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Campo Maior,
berço de Santa Beatriz da Silva
Por vezes, é fácil confundir “bairrismo” com “amor à verdade”. No que diz respeito ao lugar do nascimento de Santa Beatriz da Silva (Campo Maior ou Ceuta?), infelizmente, para aqueles que defendem uma tradição de 426 anos, com testemunhos e documentos absolutamente credíveis, que dão a Campo Maior a honra de ser o berço de Beatriz são apelidados de “bairristas” e os defensores de Ceuta teimam em não averiguar e estudar uma tradição de quase 500 anos, agarrando-se a uma obra, “História de Ceuta”, escrita em 1648, pelo português H. de Mascaranhas, ao serviço de Espanha, que diz “deverá” Beatriz ter nascido na cidade africana de Ceuta, quando têm à sua disposição, variadíssima documentação que prova as origens Campomaiorenses de Beatriz.
Por agora detemo-nos em: Santa Beatriz de Silva, Positio sobre la vida y virtudes (traducción española), en el 25 aniversario de su canonización - Toledo - 2001. Obra fundamental que resume toda a documentação histórica de um candidato às honras dos altares.
A citada “Positio”, nos dados biográficos da Santa afirma que esta nasceu em Ceuta: “La Beata Beatriz nasció en Ceuta el año 1424 ó 1426”[1] mais adiante (páginas 179 a 241), dos oito[2] testemunhos recolhidos a quando do início do processo de canonização entre Maio e Julho de 1636[3], só dois, o de Maria de Miño y Frías[4] e o de Maria de Ulloa[5] não referem o local do nascimento[6], os restantes seis afirmam que a Santa nasceu em Campo Maior, diocese de Elvas[7], reino de Portugal.
Há ainda que referir que dos 8 testemunhos recolhidos para o processo e referidos na “Positio”, absolutamente nenhum se refere a Ceuta, muito menos como o local de nascimento de Beatriz da Silva e Meneses.
Há ainda a referir, os relatos biográficos escritos entre 1512 e 1526, publicados e comentados na “Positio” (páginas 43 a 94). Os dois mais antigos referem Campo Maior como o local de nascimento de Beatriz:
- “... e o que se sabe é que nasceu esta senhora em Campo Maior” (notícia biográfica escrita provavelmente em Janeiro de 1512 e encontrada no sepulcro no ano de 1518, escrita por Joana de São Miguel, vigaria do mosteiro da Conceição de Toledo[8]);
- “O que se sabe é, que esta senhora nasceu em Campo Maior” (vida da venerável dona Beatriz da Silva, fundadora da Ordem da Imaculada Conceição, escrita entre 1515 e 1526[9]);
- Os outros dois[10] documentos, não referindo Campo Maior como local de nascimento, dizem-na “…natural do reino de Portugal”, ou “… mulher de nação portuguesa”. Em nenhum dos quatro documentos sequer se refere Ceuta, como local de nascimento, ou por qualquer outro motivo.
De facto, causa muita estranheza que uma tradição de 426 anos que dá a Santa nascida em Campo Maior, seja preterida em favor de um texto - o de Mascaranhas, escrito em 1648 (152 anos depois da morte da Santa), nunca publicado e completamente esquecido durante 270 anos - arrancado ao completo esquecimento e publicado em 1918[11], sobrepondo-se a uma tradição secular confirmada por documento e testemunhos referidos na “Positio”.
Ao ler a Bula da Canonização e a Homilia da mesma, do papa Paulo VI, o argumento a favor de Campo Maior cairá por terra, pois o papa diz que Beatriz nasceu em Ceuta[12]. Contudo, há que dizer que o Romano Pontífice é “infalível” em questões de Fé e Tradição, não em História. Mais ainda, muito provavelmente, o Papa trabalhou a partir dos elementos que lhe foram facultados e muito provavelmente apresentaram-lhe Beatriz nascida em Ceuta e não a tese, testemunhos, documentação e argumentação que a dão como natural de Campo Maior.
Dos oito testemunhos recolhidos entre Maio e Junho de 1636 para o processo de canonização da serva de Deus Beatriz da Silva, seis[13], à pergunta sobre o lugar do nascimento da fundadora da Ordem da Imaculada Conceição, afirmam que a que a Santa nasceu em Campo Maior, diocese de Elvas, reino de Portugal.
No espaço que se segue, transcrevemos a resposta das referidas seis testemunhas à pergunta do local de nascimento da Senhora Dª Beatriz da Silva.
1. Mariana de Luna, abadessa do mosteiro da Santíssima Conceição de Toledo (ff. 75-98)[14]
Foi a primeira interrogada, a 10 de Maio de 1636, Mariana de Luna, abadessa do Mosteiro das Concepcionistas de Toledo. É a mais idosa das monjas examinadas durante o processo. Natural de Toledo, naquele tempo tinha 71 anos e havia 60 que se encontrava no mosteiro da Conceição no qual tinha entrado a 25 de Abril de 1575. Portanto, conhecia bem a tradição do mosteiro em torno da Beata Beatriz. E o seu conhecimento une-se com a própria beata. Enquanto estava viva. Com efeito, a testemunha menciona algumas monjas das quais ouviu o que afirma; e uma destas, Guiomar de Avellaneda, tinha entrado na Ordem em 1500, a qual teve que conhecer as companheiras da fundadora e conservar as mais antigas memórias.
À 1ª pergunta disse que, seguindo a tradição que esta testemunha tem desde há 60 anos em que entrou para se fazer monja neste convento, ouviu dizer às monjas que estavam no convento que a venerável madre dona Beatriz da Silva nasceu na cidade de Campo Maior no reino de Portugal, diocese de Elvas.
2. Joana de Leiva, monja do mosteiro da Santíssima Conceição de Toledo (ff. 99-130)[15]
Na sessão de 14 de Maio de 1636 foi interrogada a monja Joana de Leiva de 46 anos, nascida em Bruxelas e que entrou no mosteiro da Conceição aos 10 anos de idade. Era filha da princesa de Áscoli, testemunhou neste processo e do qual copiaremos a sua declaração. Também este testemunho confirma a tradição do mosteiro, da qual na realidade provém o seu conhecimento sobre a beata.
Beatriz da Silva, todas de vida exemplar. Dirá tudo o que sabe por tradição e por tê-lo lido no livro da fundação e em outras histórias. Disse portanto que é coisa notória que a dita dona Beatriz da Silva nasceu na cidade de Campo Maior, diocese de Elvas, em Portugal…
3. Madalena Porcia, princesa de Áscoli (ff. 457-479)[16]
Ainda que não pertencesse à Ordem Concepcionista, a princesa de Áscoli viveu trinta e oito anos no mosteiro da Conceição de Toledo, dos quais esteve 17 em clausura. Foi benfeitora do mosteiro, especialmente conhecida porque em 1618 fez arranjar o sepulcro da Beata. A declaração desta testemunha não se distancia da das monjas Concepcionistas, contudo é interessante na medida que provém de uma pessoa leiga que viveu longos anos naquele ambiente religioso.
À 1ª pergunta respondeu sua excelência que havia mais de 38 anos que tinha entrado no convento, dos quais havia vivido 17 em clausura; no início conheceu no mesmo convento a Catarina de São Paulo, Maria de São Jerónimo, dona Isabel de Peralta e dona Joana de Sotomayor e dona Petronila de Rojas, pessoas muito idosas, muitas das quais foram abadessas neste convento e de vida santa, as quais diziam ter tido convivência com as religiosas que entraram nos primeiros tempos desta Ordem no primeiro convento da fundação. Disse que conhecia a todas as demais religiosas que tinha encontrado neste convento e que por isso tudo o que dizia era, por tradição, notório e público, proveniente das primeiras religiosas da Ordem, até àquelas que referiu e também pelas histórias que tinha lido num livro antigo que se encontrava naquele convento sobre a fundação da Ordem. Sabia, pois, que a venerável dona Beatriz da Silva tinha nascido em Campo Maior, na diocese de Elvas, no reino de Portugal…
4. Francisco Pablo Inza, médico do mosteiro da Santíssima Conceição de Toledo (ff. 501-504)[17]
O médico do mosteiro da Santíssima Conceição de Toledo, Francisco Pablo Inza, de quase 60 anos de idade, natural de Valência, foi interrogado a 21 de Junho de 1636. E a ele só lhe foram feitas duas perguntas, a I e a XXXI. Depois de ter respondido sobre a fama de santidade que Beatriz goza universalmente, informa a respeito de algumas curas milagrosas. A sua declaração confirma também a convicção geral de que Beatriz é uma santa.
À 1ª pergunta respondeu que desde há uns dez anos era o médico do Convento da Conceição desta cidade, e que, pelas histórias que tinha lido e por ter falado com pessoas tanto do dito convento como seculares (leigos), sabia que a venerável dona Beatriz da Silva, nasceu na cidade de Campo Maior, na diocese de Elvas, no reino de Portugal…
6. Gaspar Téllez, leigo e tio de uma das monjas da Santíssima Conceição de Toledo (ff. 599-620)[18]
É um secular (leigo), natural das Ilhas Canárias e residente em Toledo há mais de trinta e nove anos. Conheceu o mosteiro da Conceição de Toledo, porque nele se encontrava como monja uma sobrinha de sua mulher. Também a sua declaração, feita a 30 de Junho de 1636, confirma a fama de santidade, mais ainda, ele refere um facto milagroso conhecido por ele pessoalmente.
À 1ª pergunta respondeu que tudo o que ele dirá soube-o por tradição, fama pública e histórias lidas, e também porque está no Convento da Puríssima Conceição desta cidade dona Maria Espinosa Monteflor, monja professa, sobrinha de dona Francisca Monteflor, sua mulher, que entrou no Convento há doze anos, e porque conhece o Convento desde há uns trinta anos. Sabe, portanto que a venerável dona Beatriz da Silva nasceu na cidade de Campo Maior, no reino de Portugal, da diocese de Elvas…
8. Maria de Aragón, monja Dominicana do mosteiro da “Madre de Deus” de Toledo (ff. 693-704)[19]
A testemunha é uma das monjas mais idosas do mosteiro da “Madre de Deus”, no qual por algum tempo foram conservados os ossos de Beatriz. Natural de Guadalajara, de 60 anos de idade, foi interrogada a 9 de Julho de 1636. A sua declaração não apresenta notícias desconhecidas aos outros testemunhos. Confirma, sem dúvida, que também neste mosteiro Beatriz é considerada como uma santa. O testemunho refere também um milagre que aconteceu no translado dos ossos do mosteiro da “Madre de Deus” para o mosteiro da Conceição.
À 1ª pergunta respondeu que tudo o que sobre esta causa podia dizer o tinha conhecido por tradição, por fama e por história, e que tudo o tinha aprendido no convento. Sabia que a venerável dona Beatriz da Silva tinha nascido na cidade de Campo Maior, no reino de Portugal…
[1] Ordem de la Imaculada Concepción – Confederación “Santa Beatriz de Silva”, “Santa Beatriz de Silva: Positio sobre la vida y virtudes” (traducción española), en el 25 aniversario de su canonización - Toledo – 2001, pg. 1.
[2] Os testemunhos recolhidos entre Maio e Julho de 1636 para o processo de canonização são 48, contudo só 8 são utilizados na “Positio”.
[3] O início do processo de canonização e a recolha dos 48 testemunhos sobre a fama de santidade de Beatriz e dos 12 testemunhos sobre os dois milagres que lhe são atribuídos (Julho de 1638) aconteceu cerca de 145 anos depois da morte da Santa.
[4] Superiora do Convento das Comendadoras de Santiago, que habitavam o convento de Santa Fé, no qual Santa Beatriz fundou a Ordem.
[5] Monja dominicana do mosteiro de São Domingos “O Real”.
[6] E entende-se perfeitamente o porquê da omissão do local do nascimento, pois não sendo da Ordem fundada pela Santa, não tinham acesso às mesmas informações das monjas da Ordem e certamente eram pormenores que não lhe interessavam sobremaneira, e se perderam com o passar dos anos, o que retiveram e lhe interessava a elas e a quem as interrogava era o testemunho de santidade de Beatriz que perdurava quer entre as Dominicanas de São Domingos “O Real”, quer entre as Comendadoras de Santiago de Santa Fé.
[7] A quando do nascimento de Santa Beatriz da Silva (séc. XV), Campo Maior pertencia à diocese de Évora, contudo, a quando da recolha dos testemunhos (séc. XVII), pertencia à entretanto criada diocese de Elvas [O Papa Pio V, pela Bula "Super cunctas" de 9 de Junho de 1570, destacou a parte oriental da diocese de Évora, para constituir a Diocese de Elvas (a que passou a pertencer a Vila de Campo Maior), que ficou sufragânea de Évora]. Actualmente, com a extinção da diocese de Elvas [com a remodelação diocesana ordenada por Leão XIII com a Bula "Gravissimum Christi" de 3 de Setembro de 1881, a diocese de Elvas foi extinta, passando o seu território a integrar a arquidiocese de Évora], Campo Maior voltou, portanto, a pertencer à arquidiocese de Évora. Assim sendo, à época do nascimento da Santa Campomaiorense, Campo Maior pertencia à diocese de Évora, à época dos testemunhos para o processo de canonização pertencia à diocese de Elvas, daí o “nasceu em Campo Maior, diocese de Elvas, reino de Portugal”.
[8] Ordem de la Imaculada Concepción – Confederación “Santa Beatriz de Silva”, “Santa Beatriz de Silva: Positio sobre la vida y virtudes” (traducción española), en el 25 aniversario de su canonización - Toledo - 2001, pg. 38-42.
[9] Idem pg. 43-58.
[10] Ibidem pg. 58-94.
[11] Precisamente em pleno processo de beatificação por confirmação de Culto Imemorial, iniciado em 1910 e terminado a 28 de Julho de 1926.
[12] Ordem de la Imaculada Concepción – Confederación “Santa Beatriz de Silva”, “Santa Beatriz de Silva: Positio sobre la vida y virtudes” (traducción española), en el 25 aniversario de su canonización - Toledo - 2001, pgs. 359 a 367 .
[13] Ver notas 4, 5 e 6.
[14] Ordem de la Imaculada Concepción – Confederación “Santa Beatriz de Silva”, “Santa Beatriz de Silva: Positio sobre la vida y virtudes” (traducción española), en el 25 aniversario de su canonización - Toledo - 2001, pg. 179.
[15] Idem, pg. 191 e 192.
[16] Ibidem, pg. 205 e 206.
[17] Ibidem, pg. 214 e 215.
[18] Ibidem, pg. 220.
[19] Ibidem, pg. 235.

3 comentários:

maria graciano bichardo disse...

Adorei ver a reportagem do convento de Clausura de Santa Beatriz da Silva.
QUE O DIVINO ESPIRITO SANTO DEIXA SEMPRE AS IRMAS. BEM HAJAM.

maria graciano bichardo disse...

Adorei ver a reportagem do convento de Clausura de Santa Beatriz da Silva.
QUE O DIVINO ESPIRITO SANTO DEIXA SEMPRE AS IRMAS. BEM HAJAM.

maria graciano bichardo disse...

Adorei ver a reportagem do convento de Clausura de Santa Beatriz da Silva.
QUE O DIVINO ESPIRITO SANTO DEIXA SEMPRE AS IRMAS. BEM HAJAM.