"...brilhe a vossa luz diante dos homens,
de modo que, vendo as vossas boas obras,
glorifiquem o vosso Pai, que está no Céu."
(Mt 5, 16)

São vários os cristão alentejanos,
ou com profunda relação ao Alentejo,

que se deixaram transformar pela Boa Nova de Jesus Cristo
e com as suas vidas iluminaram a vida da Igreja.
Deles queremos fazer memória.
Alguns a Igreja já reconheceu como Santos,
outros estão os processos em curso,

outros ainda não foram iniciados os processos e talvez nunca venham a ser…
Não querendo antecipar-nos nem sobrepor-nos ao juízo da Santa Mãe Igreja,
queremos fazer memória destas vidas luminosas.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Santa Beatriz da Silva,
mulher inovadora

Congresso internacional aborda vida e obra da fundadora da Ordem da Imaculada Conceição, que assinala 500 anos de existência

Lisboa, 13 out 2011 (Ecclesia)
Historiadores lusos e estrangeiros reúnem-se entre sexta-feira e domingo, em Fátima, num congresso internacional para lembrar a vida e obra de santa Beatriz da Silva, fundadora da única ordem contemplativa portuguesa, aprovada pelo Papa há 500 anos.

A iniciativa recorda “uma mulher forte de origem portuguesa que quis afrontar os cânones sociais e mentais ibéricos do tempo e encontrar um espaço de protagonismo e de liberdade interior”, assinala o presidente da comissão científica do congresso, José Eduardo Franco, em texto escrito para o semanário Agência ECCLESIA.
O especialista do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa diz ser de “toda a pertinência e importância a realização de um grande congresso internacional”, dedicado aos 500 anos da Ordem da Imaculada Conceição e à sua fundadora.
Os trabalhos vão ser abertos, pelas 09h00, pelo cardeal-patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, e o arcebispo de Évora, D. José Alves, presidente da comissão organizadora do congresso internacional.
A conferência inaugural vai ser proferida pelo historiador José Mattoso (Universidade Nova de Lisboa), que vai abordar o tema “O tempo de Santa Beatriz da Silva”.
A iniciativa, que terá como palco o auditório da Casa de Santa Clara, das irmãs concecionistas, pretende “trazer ao conhecimento do público em geral quem foi essa figura extraordinária de mulher do século XV”, explica D. José Alves, em entrevista ao Programa ECCLESIA.
Beatriz da Silva, nascida por volta do 1437 em Campo Maior, viveu desde os 14 anos em reclusão no mosteiro de São Domingos de monjas dominicanas, em Toledo (Espanha), onde, segundo Eduardo Franco, “ganha fama de santidade e modelo de vida espiritual”, juntando à sua volta outras mulheres.
“Do ponto de vista litúrgico, espiritual, organizacional e jurídico [Beatriz] planeia a constituição de um mosteiro que fará nascer uma ordem feminina com autonomia, com prerrogativas próprias e liberdade de escolhas, afrontando uma tendência de fazer depender as fundações monásticas femininas das regras e ordens masculinas”, refere o presidente da comissão científica do congresso internacional.
Santa Beatriz alcançou, em 1489, uma primeira aprovação papal para a sua comunidade monástica através da bula ‘Inter Universa’, do Papa Inocêncio VIII, mas só após a sua morte (1492), a Ordem da Imaculada Conceição obteria a bula fundacional ‘Ad Statum Prosperum’, no ano de 1511, com a assinatura do Papa Júlio II.
Segundo Eduardo Franco, “ tem-se assistido nas últimas décadas a um novo florescimentos dos mosteiros da Ordem da Imaculada Conceição tanto na Europa como fora do velho continente cristão, nomeadamente na América Latina”.
“Só no Brasil existem 18 mosteiros desta ordem. Em Portugal, existem duas comunidades refundadas no século XX. Uma em Campo Maior e outra perto de Viseu na Quinta do Viso”, precisa.
Beatriz da Silva foi canonizado pelo Papa Paulo VI a 3 de outubro de 1976.
JEF/OC
Fátima - Congresso internacional
«Não são suficientemente conhecidas»
a figura e obra de Santa Beatriz da Silva
Santa Beatriz da Silva foi a única mulher portuguesa que fundou uma ordem contemplativa. 500 anos depois, um congresso analisa a figura e o testemunho desta religiosa
Faleceu aos 55 anos, em Toledo, Espanha, ainda antes de ver a Regra da Ordem da Imaculada Conceição aprovada pelo Papa Júlio II (a 17 de Setembro de 1511). 500 anos depois, a ordem por si fundada possui dois mosteiros em Portugal, 18 no Brasil, além de outras casas. Cinco séculos depois a vida da fundadora e sua obra são tema de um congresso internacional.
«A Ordem da Imaculada Conceição não só sobreviveu às fortes crises políticas, ideológicas e sociais que marcaram a Europa e o mundo ocidental como também se difundiu por diferentes países da Europa, da América e da Ásia e continua a afirmar-se com pujança através de quase centena e meia de mosteiros», escreve o arcebispo de Évora no livro do congresso que se realiza a 14 e 15 de Outubro, em Fátima. «Quando, nos nossos dias, é frequente ouvir-se falar de crise da vida consagrada, a vitalidade desta ordem contemplativa não pode passar despercebida aos historiadores e aos estudiosos dos fenómenos sociorreligiosos», defende José Alves.
Em Portugal – diz o arcebispo metropolita de Évora - «não são suficientemente conhecidas nem a figura ímpar de Santa Beatriz da Silva nem a Ordem monástica por ela fundada». Por isso, ganha maior relevância este congresso internacional. Tanto no meio eclesiástico como no meio académico «se sente a necessidade de tornar mais conhecida a personalidade, a vida e a obra de Santa Beatriz da Silva, tendo em conta o contexto cultural, socio-político e religioso em que ela viveu», sublinha.
A atenção que este congresso internacional dedica à religiosa portuguesa (e que conta com o presidente da República a presidir à Comissão de honra), à ordem por si fundada e capaz de resistir durante cinco séculos são temáticas por explorar. «É uma honra que lhe é devida por ser portuguesa e, mais ainda, por ser mulher, sobretudo, se tivermos em conta que, no século XV, o papel social da mulher era muito inferior ao do homem e bem diferente do actual», escreve José Alves.
A maior expansão da Ordem da Imaculada Conceição deu-se no século XVI, com cerca de uma centena de fundações. Mas, a vinda para Portugal das Filhas de Santa Beatriz da Silva foi tardia e a sua presença manteve-se sempre discreta. Presentemente, são dois os mosteiros com comunidades residentes: o de Campo Maior, fundado por cinco monjas espanholas, em 1942, e o da Quinta do Viso, perto de Viseu, fundado a partir da Comunidade de Campo Maior, em 1970. Diferente é a situação no Brasil, onde existem, presentemente, 18 mosteiros da Ordem da Imaculada Conceição.
«Seria interessante investigar as causas destas assimetrias. Sendo portuguesa a fundadora, como se explica uma presença tão discreta da Ordem em Portugal, mesmo na actualidade?», questiona o arcebispo. Apesar de serem apenas duas, «as comunidades portuguesas são bastante jovens e acalentam esperança de crescimento», esclarece. José Alves aponta uma «renovada atracção pela vida contemplativa» para questionar se «será isso um bom sintoma para que demos crédito a quem vaticinou que o século XXI virá a ser o século do misticismo?».
Texto Lucília Oliveira
FÁTIMA MISSIONÁRIA onlaine
Coração Imaculado de Maria
Se souber olhar com olhos de fé para aquele Coração que tanto sofreu porque tanto amou, encontrará nele muita luz e muito conforto no meio das trevas e das tortura em que sua alma se encontra.
Não pense que a Santíssima Virgem trilhou na vida uma estrada de luz: deixou, sim, muita luz atrás de si, mas essa luz era produzida pela combustão da sua alma, queimada pelo fogo da tribulação. Teve horas amargas como ninguém, viu-se envolvida em tempestades medonhas, sem saber com delas havia de sair; mas sabia que o Pai celeste é bom, que não abandona os que nele confiam e crêem no seu amor, portanto confiava, cria no amor e saboreava humildemente a amargura da sua dor. O seu coração continuava fixo em Deus, e tanto bastava.
(Agosto de 1951)
Servo de Deus
D. Manuel Mendes da Conceição Santos
arcebispo de Évora
in «Coragem e Confiança» pensamentos de orientação espiritual, pg. 63

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Congresso assinala 500 anos da Ordem da Imaculada Conceição
Iniciativa pretende homenagear fundadora da Ordem, Santa Beatriz da Silva, e dar a conhecer o dinamismo e vitalidade das irmãs concepcionistas
No âmbito dos 500 anos de aprovação da Regra da Ordem da Imaculada Conceição, a arquidiocese de Évora vai promover um congresso internacional em Fátima sobre a fundadora da congregação, Santa Beatriz da Silva.
A iniciativa, que terá como palco o auditório da Casa de Santa Clara, das irmãs concepcionistas, entre 14 e 16 de outubro, pretende “trazer ao conhecimento do público em geral quem foi essa figura extraordinária de mulher do século XV”, explica D. José Alves.
Em entrevista ao Programa ECCLESIA desta segunda-feira, o arcebispo eborense apresenta a religiosa portuguesa como alguém que “bebeu dos seus familiares uma grande devoção à Imaculada Conceição”.
Nascida em Campo maior, em 1437, no seio de uma família cristã profundamente influenciada pelo espírito franciscano, Beatriz da Silva tinha 10 anos quando foi colocada como dama de honor da infanta D. Isabel de Portugal, na corte de Castela.
Foi nesse contexto que, ao tomar contacto com experiências de subjugação e violência sobre as mulheres no matrimónio, decidiu enveredar pela vida consagrada, entrando no Mosteiro de São João das Monjas Dominicanas, em Toledo, onde permaneceu cerca de 30 anos.
Em 1484 fundou um instituto que tomou o título da Imaculada Conceição de Nossa Senhora (Concepcionistas), e alcançou uma primeira aprovação em 1489, através do Papa Inocêncio VIII.
A aprovação da Regra da Ordem, que consagrou definitivamente o perfil religioso da única grande congregação contemplativa portuguesa, aconteceu em 1511, pela mão do Papa Júlio II.
Recorrendo a uma abordagem científica, com o apoio de diversas universidades e especialistas em história religiosa, o congresso intitulado “Santa Beatriz da Silva, estrela para novos rumos” permitirá avaliar a influência da espiritualidade mariana na Ordem da Imaculada Conceição, a partir da sua fundadora.
Outro dos objetivos será avaliar o papel e influência da Ordem, em articulação com outras congregações religiosas, na História de Portugal e da Europa.
D. José Alves sublinha que, “ao contrário do que alguns possam imaginar”, o dinamismo e vitalidade que sempre caracterizou a ação das irmãs concepcionistas não se perdeu nos dias de hoje.
“Tem 155 mosteiros ativos, na Europa, na América e na Ásia, cerca de 3 mil religiosas espalhadas pelo mundo e muitas vocações. Aqui o mosteiro de Campo maior tem três jovens da nossa diocese, uma de Beja e outra do Patriarcado de Lisboa”, realça.
Para além das instalações situadas na diocese de Évora, as irmãs concepcionistas têm ainda outro mosteiro em território português, na Quinta do Viso, diocese de Viseu.
PTE/JCP
cf. 11 out 2011 (Ecclesia)


segunda-feira, 10 de outubro de 2011

D. José Francisco Sanches Alves
entrevistado no Programa «Ecclesia» de hoje
O Arcebispo de Évora será o entrevistado no Programa «Ecclesia» de hoje, emitido pela RTP2 e que vai para o ar às 18h00.
Na entrevista, D. José Alves apresenta os projectos da Arquidiocese e o Congresso Internacional sobre Santa Beatriz da Silva que decorrerá em Fátima, de 14 a 16 de Outubro.
cf. Departamento de Comunicação Social da Arquidiocese de Évora

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Congresso Internacional sobre Santa Beatriz da Silva
em destaque no Ser Igreja de hoje

O magazine radiofónico Ser Igreja deste dia 7 de Outubro dará destaque ao Congresso Internacional que decorrerá em Fátima, de 14 a 16 de Outubro, sobre os 500 anos da aprovação da Regra da Ordem da Imaculada Conceição, fundada por Santa Beatriz da Silva.
A este propósito, o cónego Senra Coelho estará à conversa com D. José Alves, arcebispo de Évora, que é também o presidente da comissão organizadora do Congresso.
Não perca esta interessante conversa que será emitida a partir das 23h em todas as rádios de Inspiração Cristã da Arquidiocese de Évora, nomeadamente: Rádio Sim – Évora – 927 AM; Rádio Sim – Elvas – 99.8 FM; Rádio Sim Alentejo – 97.5 FM; Rádio Despertar – Voz de Estremoz – 94.5 FM; Rádio Campanário – Voz de Vila Viçosa – 90.6 FM.
Contudo, esta emissão pode também ser ouvida on-line. Para tal basta entrar no site da Arquidiocese (www.diocese-evora.pt) e seleccionar, no menu a opção “Arquidiocese na rádio”. Assim, se não ouviu o programa na Rádio, pode fazê-lo onde e quando quiser na Internet.
(Fonte: página Web da Arquidiocese de Évora)

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Beatriz da Silva, fundadora pioneira e paladina de um cristianismo também de rosto feminino
Fundou-se há 500 anos a única ordem contemplativa portuguesa - Ordem da Imaculada Conceição - 500 anos

As ordens religiosas foram muitas vezes, contrariamente à opinião comum, espaços de iniciativa, de empreendedorismo e de liberdade para o universo feminino em contextos e tempos marcados por uma mentalidade social dominada pelos valores e pela liderança do universo masculino.
No desaguar da Idade Média e com o dealbar da Época Moderna acentuou-se uma tendência cultural e civilizacional tardo-medievial no Ocidente cristão que desconfiava do género feminino, que o desconsiderava em relação a uma visão que estabelecia a preponderância do homem e do seu valor considerado superior. Uma teologia do pecado original, conforme narra a história-metáfora do Génesis, que fazia recair na alegada fraqueza e fragilidade feminina, a responsabilidade toda pela queda que levaria à expulsão do primeiro casal humano do paraíso, tendeu a estabelecer um imaginário negativo, atingindo até foros de mitificação em torno da Mulher. Como bem demonstrou Régine Pernoud na sua obra sobre o Mito da Idade Média, a mulher medieval detinha mais espaço de protagonismo, de liderança para afirmar dignidade própria, prerrogativas que veio progressivamente a perder à medida que se caminhou em direção à emergência de um novo horizonte de compreensão do mundo e da sociedade na Modernidade.
Desde o século XV até sensivelmente ao Século das Luzes afirma-se na Europa uma cultura cada vez mais masculinizante que arreda a mulher da esfera pública, como se de uma espécie demoníaca perigosa se tratasse. As mulheres passam cada vez mais a ser confinadas na esfera privada, no lar e noutros espaços reservados, como nós procurámos demonstrar na obra escrita com Isabel Morán Cabanas sobre O Padre António Vieira e as Mulheres: O mito barroco do Universo Feminino.
Foi neste contexto marcado por uma moral social em que à mulher era retirado qualquer espaço de decisão, nem sequer na escolha de quem deveriam amar para constituir família cristã (direito de preferência reservado aos pais e em que os maridos detinham todo o poder sobre as suas esposas), que ocorre a chamada “Querela das Mulheres” na Modernidade. Embora tenha sido uma revolta de algum modo silenciosa, a Querela das Mulheres assumiu formas de reação da parte de mulheres da elite nobiliárquica com instrução e cultura capaz de oferecer olhar crítico sobre a realidade e sobre maneiras de pensar o seu próprio destino para além do statu quo que lhe era imposto. A vida monástica tornou-se, com efeito, um desses espaços possíveis de afirmação do desejo de liberdade e de inconformismo de muitas mulheres que não aceitavam o jugo imposto e não escolhido livremente, do elemento masculino.
Neste interessante contexto de transição moderna, se pode relevar a importância e o significado extraordinário de uma mulher forte de origem portuguesa que quis afrontar os cânones sociais e mentais ibéricos do tempo e encontrar um espaço de protagonismo e de liberdade interior.
Trata-se de D. Beatriz da Silva, nascida por volta do 1437 em Campo Maior, filha do nobre Rui Gomes da Silva que era Alcaide-Mor daquela vila portuguesa e conselheiro do Rei D. Duarte, tendo como mãe, D. Isabel de Menezes, filha natural de D. Pedro de Menezes, 1º Conde de Vila Real. A sua formação será muito influenciada pelos franciscanos com quem a família tinha relações privilegiadas, em particular com Frei Amador da Silva que veio a fundar o novo convento franciscano de Santo António de Campo Maior.
A celebração do casamento entre a portuguesa D. Isabel, filha de D. Isabel e do infante D. João e prima de D. Afonso V, com o Rei D. João II de Castela e Leão, conduz D. Beatriz à corte espanhola, fazendo parte do séquito real como dama de companhia da novel rainha, que passa a acompanhar nos trânsitos da corte castelhana. D. Beatriz ganha grande destaque na corte pela sua formosura, carácter forte e pela sua extraordinária cultura, sendo intensamente disputada por vários pretendentes, cujos pedidos de casamento recusa sempre. Ao tornar-se o centro das atenções, ganha o ciúme e a inveja da rainha que teria chegado a tal ponto de a encerrar num cofre durante alguns dias.
É neste ambiente de disputa e intriga cortesã e num contexto micro-social em que D. Beatriz toma contato com experiências de subjugação e violência sobre mulheres em situação matrimonial, que decide fazer voto de virgindade e seguir vida consagrada e de reclusão monástica no Mosteiro de São Domingos de Monjas Dominicanas em Toledo. Com catorze anos de Idade passa a viver nesta comunidade monástica em regime de semi-reclusão, dedicando-se à oração, à solidariedade e também exercendo ações de mecenato. Rapidamente ganha fama de santidade e modelo de vida espiritual, atraindo a atenção quer da rainha Isabel, a Católica, filha do falecido rei D. João II e da sua mulher portuguesa do mesmo nome, que a visita e apoia no seu ideário.
Várias donzelas são atraídas pelo seu modelo de vida e formam pouco a pouco comunidade em torno de Beatriz, vindo a fundar uma nova experiência de vida espiritual e de caridade chamada à época de Beatério numa dependência dos Palácios de Galina concedida para o efeito pela Rainha de Castela.
É a partir deste primeiro núcleo - em que D. Beatriz, já com fama de santa, e as suas doze discípulas ganham ali o seu espaço de liberdade espiritual e prestígio social - que surge o empenho de formar um novo mosteiro feminino com regra própria. É esta a pré-história da Ordem da Imaculada Conceição.
A partir do 1489, sucedem-se vários pedidos apresentados junto da Santa Sé, com o patrocínio empenhado da poderosa Rainha D. Isabel, para que esta experiência de vida religiosa seja reconhecida e canonicamente institucionalizada.
D. Beatriz idealiza uma nova comunidade monástica, tendo por modelo a Virgem Maria, que teria concebido o Filho de Deus de maneira imaculada e livre das culpas originais do paraíso perdido que recaíam sobre ela enquanto mulher. Do ponto de vista litúrgico, espiritual, organizacional e jurídico planeia a constituição de um mosteiro que fará nascer uma ordem feminina com autonomia, com prerrogativas próprias e liberdade de escolhas, afrontando uma tendência de fazer depender as fundações monásticas femininas das regras e ordens masculinas.
Não deixa de ser significativo que Beatriz da Silva queira erguer como modelo espiritual a mulher perfeita, a mãe de Deus, para alicerce da sua espiritualidade e vida comunitária. A sua ordem constitui-se num tempo marcado dentro da Igreja pelo debate em torno da afirmação da verdade teológica da Imaculada Conceição - muito defendido pelos teólogos franciscanos contra uma resistência argumentativa liderada pelos intelectuais dominicanos - que dava a Maria, mãe de Cristo, um estatuto de superação plena da culpa feminina pela oferta do Redentor à humanidade decaída.
Beatriz alcança, em 1489, uma primeira aprovação papal para a sua comunidade monástica através da bula Inter Universa do papa Inocêncio VIII, com prerrogativas de autonomia em relação às Ordens Medicante quer a Dominicana quer a Franciscana, preferindo antes ficar inicialmente na alçada da regra de Cister que lhe dava mais liberdade de ação autónoma.
Não foi pacífica o perfil idealizado, por parte de Beatriz da Silva, de uma comunidade monástica de liderança feminina, cuja abadessa tivesse competências que lembram prerrogativas exercidas por outras grandes monjas medievais como Santa Hildegarda de Bingen. A fundadora portuguesa pretendia alicerçar em Toledo uma nova Ordem contemplativa que dependesse não de um Superior de uma Ordem Masculina, mas do Ordinário diocesano, o Bispo de Toledo e depois do Papa, em paridade com o que acontecia com outros superiores maiores masculinos. Queria ter liberdade de escolha dos conselheiros espirituais e confessores, ter toda a autoridade e decisão no espaço do seu mosteiro: controlo de entradas e saídas, definição de regimentos internos, poder oficiar uma liturgia própria inspirada na espiritualidade imaculista e concepcionista mariana em dias festivos e solenes próprios. O modelo de vida deveria ser a figura sagrada feminino da Imaculada Conceição e o espaço reservado e controlado sumamente pelas mulheres que ali consagravam a sua liberdade, corpo e alma, a Deus através de Sua mãe, Nossa Senhora, caminho modelar e inspirador da possibilidade de afirmação e perfeição cristã no feminino.
A negociação e definição do perfil da nova ordem sonhada por Beatriz foi morosa. Só anos depois da sua morte, ocorrida em 1492, a Ordem da Imaculada Conceição obteve a tão aguardada bula fundacional Ad Statum Prosperum no ano de 1511 com a assinatura do papa Júlio II, marcada pelo timbre imaculista da espiritualidade franciscana ligada à exaltação da conceição virginal de Nossa Senhora. A Ordem, cuja fundação sempre foi atribuída a Santa Beatriz da Silva, conheceu o grande período de expansão nos séculos XVI e XVII, em que multiplica cerca de uma centena de mosteiros pela Europa católica e América espanhola, onde é pioneira na fundação de mosteiros femininos.
Depois das vicissitudes que sofreram as ordens monásticas a partir do Iluminismo e com os processos persecutórios de carácter político e ideológico sofridos durante o século XIX e primeiras décadas do século XX marcado pela emergência do laicismo e do liberalismo, tem-se assistido nas últimas décadas a um novo florescimentos dos mosteiros da Ordem da Imaculada Conceição tanto na Europa como fora do velho continente cristão, nomeadamente na América Latina. Só no Brasil existem 18 mosteiros desta ordem. Em Portugal, existem duas comunidades refundadas no século XX. Uma em Campo Maior e outra perto de Viseu na Quinta do Viso.
O século XXI, que alguns teólogos anunciaram como o século do ressurgimento do misticismo e da vida espiritual, está a ser o da afirmação plena do lugar e do papel da mulher na sociedade como uma realidade cada vez mais visível, ultrapassando séculos de invisibilidade na esfera pública. Hoje, pois, o projeto que estrutura o ideário fundacional de Santa Beatriz que cria a única grande ordem contemplativa portuguesa e inspirará, mais tarde, outras fundações como a Congregação das Irmãs Concepcionistas ao Serviço dos Pobres, não pode deixar de ser relevado do ponto de vista cultural, social e espiritual no plano largo da ação dos grandes protagonistas da História Portuguesa na sua articulação com a história ibérica e internacional.
Uma mulher quis ser livre e realizou-se através da procura de uma liberdade maior que não prende o corpo, nem subjuga a vontade, mas liberta o espírito num plano superior à deriva rasteira dos dias e das sua múltiplas preocupações.
Tendo ganhado fama de mulher forte e santa ainda durante a sua vida, a Igreja viria a oficializar o reconhecimento público da sua santidade, depois de um longo processo canónico que já vinha do século XVII. O papa Paulo VI acabaria por elevá-la ao grau máximo de santidade, canonizando-a a 3 de Outubro de 1976 e apresentando-a à Igreja como modelo de vida cristã a seguir.
A Santa Sé não poderia, de facto, ficar indiferente a uma fundadora extraordinária que afrontou a mentalidade misógina do seu tempo e que iniciou uma ordem feminina peculiar e valorizadora da vida cristã no feminino pelos começos da Idade Moderna, continuando a dar frutos de pujança espiritual nos dias de hoje.
É, pois, de toda a pertinência e importância a realização de um grande congresso internacional em Fátima nos dias 14, 15 e 16 de Outubro próximo dedicado aos 500 anos da Ordem da Imaculada Conceição e à sua fundadora na relação com a espiritualidade marina e com o papel e influência da ordem em articulação com outras ordens religiosas na história de Portugal e da Europa.
José Eduardo Franco
Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias
da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa